11 de novembro de 2011

Novo, de novo

Quando a gente ainda mede a altura com lápis na parede e relógio não representa nada além de uns rabiscos imaginários no pulso, tempo significa apenas uma coisa: descoberta. Passamos boa parte da nossa então minúscula vida importunando nossos pais com milhões de porquês. Ora, alguém precisa explicar, afinal, por que você ficou o dia inteiro com sede depois de engolir beber tanta água do mar nas férias de verão, mesmo ouvindo sua mãe dizer pra não fazê-lo. Poxa, era água. Nada como a experiência própria.

Você vai descobrindo da vida e ela de você. Como vão passar um bom tempo juntos, é bom irem se conhecendo logo. Você descobre que seus avós muitas vezes são mais legais que os seus pais, mas que talvez isso não seja o melhor pra sua noção de mundo, embora teime em insistir no contrário. Descobre também que seu irmão tem necessidades iguais às suas, o que significa que os brinquedos não são de sua exclusividade e que o vídeo-game é uma honra a ser conquistada. Quase sempre no tapa. E não importa quem começou a briga, vocês sempre vão dividir a culpa, assim como o castigo e as pazes. Você descobre que existem alguns poucos colegas que, curiosamente, estão sempre do seu lado nas fotografias, no dia em que mataram aula e quando foram pegos. Você não sabe por que, mas gosta um tanto deles. Eles são seus amigos, mas isso você só vai descobrir mais tarde. Você descobre o primeiro beijo, o primeiro amor e a primeira vez. E que nem sempre o primeiro é o melhor, mas que o pódio foi seu impulso pra ir mais alto.

Então você cai. Cai e dói pra burro.

Você não imaginava o quanto uma decepção pudesse doer e descobre que lágrima não é acesso vip pras suas vontades. Ela agora vem em sentido contrário, te derrubando no meio do caminho. Mas você aprendeu desde novo que depois de tombo se levanta e já sabe o que fazer. Você descobre que vento na cara, água gelada e pés descalços são coisas pra se curtir, não pra evitar. Descobre que a faculdade é sua chance de emancipação e que as roupas não aparecem lavadas e cheirosas no seu guarda-roupa pelo milagre da Nossa Senhora do Omo.

O que você não percebeu, até então, é que dentre todas as curiosidades era normal ter alguém por perto vivendo o mesmo momento, com você. Por mais que isso significasse sua derrota na disputa do videogame, afinal seu irmão era maior e mais forte. Você e a vida não estavam sozinhas, havia sempre um terceiro elemento te amparando. Ou aparando. E se as podas servem para acelerar o crescimento numa só direção, eis que aí está você, crescida, nutrida e sabendo das coisas, né?

Errado.

Você agora dá de cara com a vida. Sem ninguém pra opinar, corrigir ou ajudar. E você descobre que sabe bem menos do que imaginava. Inclusive a si própria. Você ficou mais séria, responsável e aqueles rabiscos do relógio tornaram-se reais. Tempo virou artigo raro de coleção. Clichê. Você já assinou o seu contrato vitalício de independência e vai ter que reaprender a descobrir. Inclusive a si própria. E não importa se você ainda não descobriu exatamente pra onde quer ir. Simplesmente vá.


Há dois meses, eu decidi fazer a minha primeira viagem sola, com a minha primeira economia, do meu primeiro trabalho oficial. O que já é bem comum pelas bandas daí afora, fato. Tanta gente metendo a fuça no mundo, eu é que não vou ficar parada olhando o branco da parede. Mas tirando as poucas almas que me apoiaram, tudo o que eu ouvi (ou vi nos olhares) foi algo variando entre:
"Nossa, sozinha... qual a graça?"
"Mas é arriscado!"
"Doida..."

Quinze dias, três destinos e uma mochila.
E cê sabe, eu tô torcendo pra que eles estejam certos.

Oxalá!

"Mas o que pode valer a vida,
se o ensaio da vida,
já é a própria vida" 
(Milan Kundera)

28 de outubro de 2011

Quem vê de longe, vê melhor

O fato é: eu nunca fui muito adepta à repetição.

Não que a rotina seja tão insuportável. Eu gosto de comer torrada pela manhã, me enfurnar num filme nas tardes de domingo e manter a tríade noturna trabalho-casa-academia, mesmo que isso custe os pandas da cara nossa de todo dia. Eu só não curto muito fazer tudo isso sistematicamente do mesmo jeito e no mesmo lugar, sempre. Se eu tivesse que ganhar a vida batendo prego, talvez eu arrumasse um jeito de inverter as partes, ou pintaria os pregos por tamanho ou faria buraquinhos em forma de desenhos. Não que fizesse grande diferença (ou fosse dar certo), mas ao menos eu não ia morrer de tédio.

Daí que eu comecei a aprender o significado de mudança antes mesmo de decorar a tabuada, o que causava alguns pequenos sustos em casa, ainda proporcionais ao meu tamanho, mas suficientes pra provisionar o estrago a longo prazo. Não raro minha mãe encontrava os móveis da casa em lugares alternados numa bela quarta-feira qualquer chegando do trabalho. Ou ainda se deparava com o guarda-roupa (dela, pra tristeza dela) mexido, ou com o meu cabelo colorido de papel crepom azul aos 12 anos, ou com as minhas malas. Coitada, teve que se acostumar. 

Nessa de mudar, começaram a ter pessoas envolvidas e rolar um agravante. Distância. Afinal, a gente só sabe que fogo queima depois de ter a pele arrancada por brincar com resto de vela. Não que eu tenha alguma noção de como controlar esta merda chamada distância, eu simplesmente gostaria de comprimir as pessoas que estão longe e transportá-las comigo em tamojunto.zip, o que ainda não foi possível, como se vê. 

Mas se tem uma coisa que alguns bons kilômetros no chão ensinam é a enxergar. No meio de um auê, a gente adora o mote “pedir opinião pra quem está de fora” e não é à toa. De longe se vê melhor. Se a distância me faz lembrar a cada segundo de quem eu amo e da saudade absurda que eu sinto, ela também levou o que já não importava tanto. Porque é justamente na falta que se faz a presença, uma bela ironia quando sucedida por um reencontro. Hoje, eu sei por quem vale a pena percorrer 700km, virar noite arrumando mala só pra passar 48 horas juntos e ter que voltar com o coração rasgando, mas ainda tão feliz. Mudar é bom, partir é assustadoramente delicioso, mas tão bom quanto, é manter os vínculos certos e ter pra onde voltar. E isso eu não quero mudar nunca. Nem que eu tenha que passar a vida batendo prego.


Durante a faculdade, a gente conhece zilhões de pessoas. Hoje, eu tenho meia dúzia delas.

De longe, a minha melhor escolha.



"I hope you have found a friend"


31 de agosto de 2011

Doce Agosto



São quase seis horas da última tarde de agosto de 2011. Tem gente agradecendo o fim do que parece ser o mês mais arrastado e lazarento do ano. Tem frio, chuva e engarrafamento do lado de fora. Nenhuma desobediência ao ritmo paulistano. Mas, alguma coisa acontece no meu coração. Sempre desconfiei que essa demora de agosto tivesse motivos justos escondidos e hoje eu bem sei por que o calendário parece ser tão insistente nessa época. Hoje, esses dias podiam durar um pouquinho mais só pra me fazer lembrar que sorte não é patenteada pela mega-sena, embora eu já tenha escolhido meus números favoritos. São 365 dias de vontade, 24 horas de persistência e 60 minutos marcando continuos recomeços. Não é pra menos.

Você me ensinou o significado de preocupação aos sete anos de idade, convenhamos, um tanto cedo pra quem tinha por grandes ocupações mirins conciliar o horário do Cavalo de Fogo com o ballet. Os papéis de carta manchados a seco ainda guardam na gaveta o choro silencioso das tardes de domingo, supostamente feitas para nada além de sorvete, sol e encontros. Vi minhas barbies se aposentarem e meu medo crescer fazendo hora extra. Foram 18 anos espreitando aquele lugar vazio na mesa de café da manhã, ouvindo o teu silêncio no almoço e convivendo com a tua ausência à noite. Aliás, se tem uma coisa que me fazia companhia no seu lugar, era esperança. Boba, mas tão verdadeira. Mesmo que como nota de rodapé nos meus sonhos. Um dia eu me lembraria.

Então eu saí de casa e, pra te falar a verdade, eu empacotei o descaso junto com a minha mudança que, por ironia barata, você me ajudou a fazer. Eu experimentei ir ver como é que funfava a rotina sem ter que tirar a angústia do armário todo dia pra vestir. Meus vinte e poucos anos imploravam por uma greta de ar e lá fui eu tomar fôlego para, depois de quatro anos, voltar a mergulhar no sufoco. Aí, você bem sabe, a coisa desandou. Unimos nossas arrogâncias em discussões e farpas trocadas ao longo dos dias. Foi o verdadeiro inferno astral sem data marcada. Eu não aceitava mais e tampouco queria aquela velha verdade de volta, feito um inútil papel desamassado. Peguei novamente a minha mala e fiz o que já estava bem acostumada a fazer. Ir embora. Definitivamente.

Veio o alívio me fazer companhia, veio a saudade e veio agosto. Nada muito incomum, exceto pelo que mudou. Foi preciso apenas uma ligação para eu pegar aquela esperança guardada e me jogar na melhor certeza que já tive. Era incrivelmente real a mudança, até quase assustadora. A euforia me anestesiou de todas as mágoas e a distância foi mero detalhe para a minha felicidade. Poder jogar conversa fora nas tardes de domingo já era a maior realização. Nunca pensei no tamanho valor do óbvio. Nunca pensei em adotar um mês assim tão mal-falado como preferido. Hoje, um ano depois, sabemos que ainda há muito a ser acertado e compreensão é o primeiro item da nossa extensa tarefa de casa. Literalmente.

Enquanto isso, só espero dizer... até o próximo agosto. 


19 de julho de 2011

Quem poderá nos salvar?


Da porta pra fora, quem se garante?

Pensa na cena. Férias de julho, fim de tarde, casa de vó, conversinhas despretensiosas enquanto espera a máquina de waffle bajular nossa gula. A vida é boa né não? E fica ainda melhor quando sua vó coloca três waffles em perfeito estado de matéria na sua frente com um império de requeijão e manteiga pra você se jogar. Pois bem, tava ali celebrando toda a sorte de pecados capitais quando veio a dúvida atroz, porém necessária: vó, pra quem a senhora vai dar essa belezura dessa máquina de waffle?? Sei não filha, tá sem pretendentes. Jura? Tô me candidatando então tá. Tá.

Tempo passa, acaba férias de julho, acaba fim de tarde, casa de vó fica a 700 km, só pra entretenimento imaginário, acaba vidão. Oh dó! Que hacer ahora José? Eis que vó vem à capital. Esqueci de dizer que vó, além de fazer o melhor waffle do mundo, é despachada, moderna e usa MSN. E você aí da década de 80 se achando muito atualizado. Vó passeando pela minha modesta moradia se solidariza com a inanição de guloseimas. Pobre neta sem waffles! Vó então diz que vai antecipar a herança e providenciar o transporte da máquina da felicidade. Meses depois a tão esperada encomenda chega. E mais, veio com receita. Sabe como é, coisa lendária aprimorada por anos, pra fazer Ana Maria Braga largar carreira artística, botox e ir morar numa casinha de sapê no interior. Até aí tudo lindo. Problema é que o talento não veio junto com a entrega do correio. Neta faz a receita, coloca a massa na máquina, espera mágica, mágica falha. Massa escorre pelos lados, gruda, queima na lateral, miolo fica cru, máquina cospe fumaça, cozinha embaça. Todo um dom especial pra desastres envolvido. 


E o que era pra ser um belo café da tarde de um gostoso domingo de inverno, vira essa cena lamentável. Vira neta desesperada achando que vai botar fogo na casa e pensando no carro de bombeiros embaixo do prédio, multidão se aglomerando na rua e ela se justificando pras roomates “olha, era pra ser pra um waffle, não um incêndio, mas eu tirei as roupas do varal e salvei as plantas, vai ficar tudo bem”. Gente, um waffle. Vamos refletir. Que é que custa pro bendito dar certo? Por que intuição falha quando passa na porta da cozinha? Alô Amélia, telecurso 2011 djá! Não é possível, eu já tive mais dignidade com uma panela na mão. Prova que meu macarrão carbonara nunca matou ninguém. Até onde eu saiba.

Mas aí vem um waffle de receita espiritualmente patenteada e prova que você é um mero embrião gastronômico comparada à sua vó. Detalhe, com chances ínfimas de evolução. Porque né, convenhamos, as espécies antes tinham muito mais tempo pra se aprimorar e deixar Darwin feliz. No meu caso, Murphy fica com todos os créditos. Eu só penso no que vai ser da minha neta. Talvez ela encontre um final feliz no setor faça-você-mesma do supermercado. Caso contrário, a máquina de waffle vai estar lá, pronta pra batalha final. E como boa vó, eu vou estar lá, rezando. Apoio moral é tudo minha gente.

28 de junho de 2011

Deus não dá asa a cobra mas abre via de acesso

Eu já havia perdido a conta de quantas vezes minha memória registrou a mesma cena. Era à noite, final de domingo e da sensação inquieta de esperar trocar o conforto de casa pelo banco do ônibus varando noite a fio. Eu nunca consegui explicar o que se passa comigo nessas horas. Vai ver nunca quis, a sensação de pegar a alça da mala pra ir embora me ascende um gosto tão grande pelo desconhecido que o frio na barriga acaba roubando a vez da saudade antecipada. De companhia de viagem marcavam presença meu fone de ouvido, uma jovem senhora e um mero detalhe: minha incapacidade de dormir. Foi o motorista ligar o motor da carcaça e arrancar a primeira pra senhorinha do meu lado sacar o terço do bolso e começar a rezar. Forte. Se desse pra cumprir penitência por osmose, teria pago todos os meus pecados ali na hora. Até porque ouvi um papo nesses dias de que eu estava precisando “encontrar com Deus”. É, marcar um horário, colocar a conversa em dia e agradecer por ter cinco dedos nas mãos e nos pés, essas coisas. Só espero que não tenham pensado nisso de uma forma literal. Vai saber. Somando então 12 horas de estrada com tantas ave-marias do meu lado cheguei à conclusão cartesiana de que isso só poderia ser um sinal dos cosmos pra colocar as pendências em dia e fazer um balanço de resultados no departamento celeste. 

Olhei lá praquele lugar de onde saí e não pretendo voltar, minha cidade natal, Ubá. Ubá é o tipo usual de roça cidade do interior de MG. Igreja, praça, banco da praça, carrinho de pipoca da praça, velhinhos sentados na praça e beatas à espera do juízo final. Eu não sabia muito do mundo além dos das aulas de geografia e programação de férias escolares, porém do alto do meu imaginário infantil desconfiava que pudesse existir vida além daquele perímetro pseudourbano. Não demorou para os anos alcançarem minhas pernas e ficarem para trás junto com a poupança Bamerindus. Você sabe que existiu, foi até legal, mas não teve potencial pra durar. Eu poderia ter ficado lá e feito uma faculdade morando no conforto de casa, eu poderia ter poupado a dor de cabeça dos meus pais (coitados), eu poderia ter arrumado um trabalho qualquer e vivido tranquilamente. Eu poderia não ter crescido. 

Não é bem em cima da via que você deve ficar.

Dizem que oportunidade é a gente que faz. Só esqueceram de avisar que não existe receita pronta, ou seja, por aqui ainda se quebram os ovos. E a cara. Como sorte de ouro não veio no pacote da cegonha, conformismo também ficou pra trás. Era mais fácil convencer um elefante de que ele não pode voar do que manter meus pés no mesmo lugar. Doooois anos foi o tempo gasto para conseguir embarcar num intercâmbio junto com o resquício de proteção caseira. Mal conhecia o significado da palavra independência e já me achava no infame direito de ter domínio sobre a direção do meu nariz. E lá foi a incauta conhecer Tio Sam de mãos dadas com o perrengue. Não satisfeita em quase fazer minha mãe parir um quarto filho, resolvi então girar o mapa em direção à Bahia e me jogar numa experiência maluca, trabalhando num hotel e colecionando horas de sono como figurinhas premiadas. Ainda não contente em ensaiar saudade, vim fincar minhas trouxas nesses belos blocos de concreto de cada dia.

Acabei encontrando no caminho um sinônimo mais legal pra férias do que o sofá da sala. Porque não saber o que vem depois da próxima curva ficou mais gostoso do que o roteiro programado da atoice. Porque, simplesmente, viver ficou melhor que sonhar. Até dividir o espaço com São Paulo pode ter sua recompensa, mesmo que a rotina aperte a sanidade. E foi desse jeito meio torto que eu pude ver o quanto o mundo era maior do que a praça da igreja. A boa notícia era, eu poderia ir sentar no banco de qualquer uma delas. A condição, desde que usasse as minhas pernas pra isso. E olha, não tem regalia nesse mundo que pague uma dose de conquista, ainda que a conta-gotas. Enquanto a galera lá de cima se diverte em testar meus limites, eu apenas aumento o tamanho do elástico.

1 de junho de 2011

O metrô mais bonito da cidade


Depois de ter lido esse post com a opinião mais bonita da cidade e ter xeretado alguma coisa do frisson na internet, eu só pude concluir que o melhor da música Oração foram as paródias. O vídeo viralizou tanto que as letras aleatórias viraram praticamente memes.

Então resolvi dar minha singela contribuição com os versinhos abaixo.
Diferenciados do meu Brasil, tamo junto!

Acompanhe o vídeo com a letra e meta o pé na vogal estendida. Cifra é para os fracos.




Confusão - O metrô mais bonito da cidade

Por favooor, essa é a úuultima estaçãaao
Chega dee dar eeempurrão
O vagão não é tão grande quanto pensa
O que é que custa você dar licença
O trem eemperrooou
Atrasou a linha inteiraaaaaa
E ainda ée seegunda-feeiraaa
Ninguém embarcooou


Seu Kassab, poor favooor...

 (repita 857 vezes)





Todos os direitos autorais estão reservados. Se alguém reproduzir esta letra sem citar a devida autoria, vai arder no inferno com Luan Santana cantando Meteoro da Paixão em acústico pela eternidade. 
A profecia está lançada, não diga que não avisei.

27 de abril de 2011

Fundo de quintal


Não, ninguém bebeu, isso aqui não é uma alusão a crenças pagodeiras e você não caiu no blog errado (ou sim).
Ocorre que a dona desta coisa que ela gosta de chamar de blog, porque é das modices internéticas, publicou um texto no Papo de Homem e nem se dignificou a reproduzir o ato aqui, nesse mausoléu abandonado.  Então resolvi me pedir perdão e pagar os pecados a tempo.
Agradeço ao Guilherme pela paciência da edição. Apareceram várias boas almas querendo salvar o layout do BC. Está difícil selecionar, só chegam portfólios legais e gente muito da interessada. Estamos pensando numa maneira de fazer um desenvolvimento coletivo para absorver o máximo que conseguirmos. Wait and see!
Justiça seja feita, aí vai o post falando do movimento literário mais delícia cremosa que está tendo. Ah, peguei as mesmas fotos e legendas, créditos para o PdH por favor. Obrigada.

"Já pensou no mundo como uma biblioteca a céu aberto, onde os livros circulassem por diversos países e fossem lidos por inúmeras pessoas? Em tempos de difusão dos e-books, parece ser uma ideia pouco aplicável, mas está em pleno vigor e tem nome.

O BookCrossing (BC) é um movimento literário mundial que consiste na prática de três pilares: Ler, Registrar e Libertar. Após ler um livro, o leitor liberta-o num local público para ser encontrado por outra pessoa que, por sua vez, deverá fazer o mesmo. Cada livro possui um código, o BCID, criado automaticamente pelo site no momento do primeiro registro.
Na contracapa, há uma breve explicação sobre o movimento, além de um convite para os próximos leitores registrarem o local em que a obra foi encontrada, assim todos poderão rastreá-la. Os próprios leitores podem libertar seus livros criando um novo código BCID ou doá-los aos voluntários do BC em algum ponto fixo.

Me leva pra casa, manolo!
  
Ao cadastrar-se no site, o usuário está apto a todas as formas de compartilhamento de informação como resenhas, artigos, fóruns de discussão e críticas. Atividades para incentivar e dividir as experiências entre os participantes, chamados bookcrossers.
O projeto teve início em 2001, quando um programador americano, Ron Hornbaker, identificou a oportunidade de se compartilhar e rastrear livros pela internet tal como era feito com notas de dólar, selos e figuras de coleção.
A ideia já movimentou mais de 6 milhões de livros por meio de 900 mil bookcrossers em cerca de 130 países. A equipe mantenedora está estabelecida em Sanpoint, Idaho, nos EUA, e conta com voluntários pelo mundo todo que fazem a locomotiva literária andar.
O Brasil está em 17º no ranking mundial de participação com 7 mil leitores e os parceiros e Pontos de mantém um site exclusivo com atualizações de notícias, eventos e ações de libertação dos livros no país.

BookCrossing em ação
A equipe brasileira procura agora um voluntário que possa desenvolver o site e aprimorá-lo, ajudando o BC a expandir suas fronteiras em terras tupi-guarani.
Os requisitos do programador são:
  • Dominar a plataforma WordPress;
  •  Desenvolver em PHP;
  • Dominar o Google Apps;
  • Fazer edição de imagens PSD/PNG. 
Se você quiser contribuir ou sabe de alguém que possa, entre em contato com esta que vos fala pelo email claraufv@gmail.com. Também é possível nos ajudar indicando estabelecimentos para tornarem-se um ponto de BookCrossing ou mesmo resgatando aquele clássico do fundo do armário e libertando-o no mundo.
Confesso, à primeira vista não é fácil aceitar a ideia de nos desfazermos dos nossos livros, já que criamos uma cultura de apego material e vínculo emocional a eles. Mas tão logo a vontade de compartilhar a experiência de uma leitura torna-se maior do que a de guardar tantos volumes numa estante.
Quem sabe livros são como homens, precisam se perder para se encontrar."

Para acessar o original clique aqui.
Então, tá esperando o que pra desovar sua prole literária, criatura?
:)

5 de abril de 2011

Lá de longe

Como não é novidade pra quem bem me conhece, eu adoro recordações. Sou daquelas cancerianas encasquetadas que, se pudesse, guardava cada pedacinho da vida numa caixa de papel só pra poder abri-la às vezes e sentir aquele momento de novo. Sou apegada às pessoas que me marcam, aos cheiros que descubro (tenho nariz de tatu) e aos lugares por onde passo. Chega a ser patética toda essa afeição. Fico relembrando aquela fatia que eu degustei, lambi os dedos e não me conformei quando acabou.

Daí a gente cresce. A caixa vai ficando maior, somando lembranças e ocupando um puta espaço. Eu, sem saber o que fazer com tanto peso, vou guardando umas fotos aqui e uma memória ali pra ver se consigo acomodar toda a tranqueira. A cada ano, o conteúdo dela cresce mais e mais feito bolo com dosagem extra de fermento que vai transbordando pelas bordas. Até não sobrar mais espaço, me restando enfiar os pertences do passado nos quatro cantos do presente. Pronto, disparou o alarme da nostalgia ensebada. Com toda a sabedoria de um jegue, eu peguei a minha caixa cremosa, colorida, coberta de chantilly e perfumada de lembranças e coloquei-a bem no meio do caminho, com direito a tropeço e praguejo. Depois do tombo e da cara quebrada, eu resolvi dar uma olhadinha pra trás pra ver o que estava me empacando. Qual não foi a surpresa frente à autoconstatação.

Não sei dos outros, mas eu tive uma vida bem legal até então. Simples e deliciosamente aproveitada. Infância nos conformes, brincava na rua, pendurava em árvore e vivia com o joelho esfolado. Adolescência digna de semvergonhices e faculdade muito bem vivida. Ah, a faculdade... quatro anos pra se guardar num potinho a sete chaves. Viciosa, para os íntimos, me rendeu a melhor época da vida.  Sabe, tava muito bom pra eu querer crescer. Mas caso o calendário poupe alguém, por favor me avise pra eu tirar as devidas satisfações com o tempo. Pois logo acabou a fase da malemolência e me tiraram a graça da despreocupação como quem tira doce de criança. 

Jura que meu tempo acabou?
Meus amigos agora marcavam presença na caixa de emails enquanto eu marcava vaga de emprego. Ficou tudo assim, meio sem graça, meio sem cor. Sem pensar muito, eu me vi na realidade cinza de São Paulo, aprendendo sobre números, direções e dissabores. O espelho não me reconhecia e a recíproca era dolorida e verdadeira. Nada do que estava ali me representava. Na esperança de me encontrar nas recordações, abri a caixa de papel pra tentar me achar. Inútil esforço. Trazê-la pra realidade só fez aumentar o desconforto. Enquanto eu tentava encontrar alguma saída, o óbvio apareceu pra me visitar. Chegou com intimidade, como se me conhecesse desde sempre. E de fato conhecia, só faltava me fazer enxergá-lo.

Foi quando percebi que saber trocar de cenário é saber compensá-los. É uma constatação evidente  (dã),  mas exige boa dose de sabedoria prática. Eu, que me achava muito sabida por sair de casa aos 18, lavar minhas roupas e fazer arroz sem queimar, me vi desnorteada aos 24. Passado o meu estágio de larva aprendiz, o que se deu a seguir não foi um novo começo de era de gente fina, elegante e sincera. E é justamente aí que nasce a astúcia da compensação, pequena gafanhota.
Talvez eu não tenha mais tantos amigos por perto, mas posso ligar pra eles e enchê-los de bobagem no ouvido a qualquer hora. E ser xingada por isso quando for de madrugada. Posso não ter mais as tardes tranquilas, mas preencho-as fazendo algo útil e ganhando uns trocados que chamo carinhosamente de salário. Também não tenho as festas lendárias da universidade, mas ganhei um bocado de lugares novos pra conhecer. Nem vou ter os mesmos chamegos e atenção daquele que ficou no passado, mas posso encontrar outras características que até então eram ausentes. Minha família está espalhada aos quatro ventos e contraditoriamente nunca tão unida como agora. Enfim, se eu parar de tentar reproduzir as experiências já vividas, vou encontrar um mundo tão cheio de novas possibilidades quanto aquele lá do início.

E ainda assim tenho a chance de selecionar os momentos e as pessoas que mais gostei pra guardá-los naquela caixa, no seu devido lugar. Porque né... o tempo é que nem funil, deixa passar só o que presta.

Eu, que sempre quis mais do mesmo, já não me contento com o mesmo de sempre.

11 de março de 2011

O fruto permitido

yummy!

Mágica, né, essa tal de revolução tecnológica. Eu, que cresci e desenvolvi os ossos junto com a parafernália, fico abismada com tamanha criatividade. É gadget pra lá, gadget pra cá e quando vê, a coisa evoluiu num espaço de tempo tão curto, mas tão curto, que sequer paramos pra respirar e entender o que está acontecendo. Como um surto viral, uma certa maçã foi sendo mordida não só por Eva, mas multidões. O pecado da gula se ascendeu, Adão comemorou e tem gente sofrendo de indigestão sem saber o motivo. O fruto do paraíso nunca foi tão cobiçado. A diferença é que agora ele não dá só em árvore.

Cá pra nós, nunca comprei um produto da Apple. Não que me falte vontade, mas a minha árvore, antes de dar maçã, tem que dar dinheiro. E meu dinheiro, antes de virar uma maçã, precisa virar muitas outras coisas. Perrengue, a gente vê por aqui. Vou travando essa batalha com as minhas planilhas financeiras pra fazer caber todos os meus desejos nas linhas espremidas do excel (galerinha do mac é capaz de parir trigêmeos ao ouvir falar no office) quando percebo que não está faltando entretenimento para a minha sobrevivência.
Meu computador, querido, meu filho, tá vivo e passa bem. Aqui nozói do furacão tem biblioteca e sebo e livraria e revistaria e coisaria pra mais de metro.Se inventassem pontuação por tempo na Fnac, eu tava aí ganhando prêmio. Meu celular faz todas as ligações que preciso e envia todas as mensagens que quero, o que chega até a ser meio perigoso. Internet eu tenho em casa e no trabalho. Vejo todos os filmes que quero, ouço todas as músicas que gosto e meu coração nunca deu pirepaque enquanto eu estava correndo por falta de vigiar os batimentos cardíacos no medidor de pulso, amém. Do que mais eu preciso?

Ah sim, eu preciso ter um celular com internet acoplado no meu corpo pra poder checar a cada segundo as atualizações no twitter e o tanto de curtir que ganhei naquela última frase no facebook. Preciso postar foto do meu drink/cachorro/balada/namorado/pôr-do-sol/café/tatuagem no instagram com uma frequência razoável pra ninguém achar que eu morri. Afinal, se a minha vida na internet não tem repercussão, algo está errado. E pra angariar tanto ibope assim, só mesmo estando com todos os botões, tanto os seus quanto os do seu gadget, conectados vinteequatrohoras. Orra, ninguém mais vive offline? Ninguém mais vai pro bar com os amigos tomar cerveja e formular teorias ébrias? Ninguém mais passa um fim de semana épico sem ter que comunicar isso em todas as redes sociais?
É óbvio que a mudança de comportamento vincula-se às mudanças sociais. Não tenho a pretensão em contestar a utilidade dos aparatos tecnológicos mesmo porque isso seria cuspir pra cima e me banhar na hipocrisia. Os apetrechos estão aí é pra facilitar a nossa vida mesmo. Trazer quem tá longe pra mais perto, diminuir a saudade, otimizar nosso tempo, ampliar o acesso à informação, movimentar a economia e vários outros benefícios. Só que no meio de tanta invenção, esqueceram de reinventar o bom senso. Na boa, celular nenhum nesse mundo vai te dar chocolate num dia ruim ou te chamar pra fazer nada juntos.  Se você achar que sim, bom, aí você está com problemas e devia procurar um grupo de ajuda, fazer terapia, sei lá.

Em breve eu vou ter que comprar um celular menos bastardo que o meu porque tá ficando impraticável perder o tempo gasto em locomoção aqui nessa jeringonça de cidade grande enquanto eu poderia resolver aquelas pendências rotineiras (na verdade mesmo, tá foda viver sem o google maps pra me falar os trajetos quando eu fico perdida). E não será Iphone nem Ipod nem Itouch nem Ipad, eu já disse que a minha árvore ainda é um broto. O ponto nisso é que eu me forcei a esperar surgir uma necessidade pra fazer essa compra, assim como vou me forçar a continuar dando mais atenção a quem for de carne e osso. E quando eu digo que me forcei é porque, apesar de todo esse discurso born to be wild, eu não sou nenhum ser superior aos reles mortais escravos da tecnologia. Eu gosto da bagunça, só procuro dosar entre aquilo que, pra mim, tem mais valor.

Afinal, qual foi a última vez que você chegou em casa e ligou o chuveiro antes do computador? 

25 de fevereiro de 2011

Leve o dia leve

Antes de prosseguir a leitura, dê o play: Eliza Doolittle - Pack up

Se tem uma coisa gostosa de se admirar é aquele olhar evasivo do cotidiano cultivado por algumas pessoas. A capacidade de enxergar beleza na rotina e mudar o ângulo qual seja o lugar tornam os dias mais amáveis.

E vá lá, a rotina não é assim tão chata. O que manda é o jeito como escolhemos vivê-la. Muitas vezes eu me pego ranzinza no meio do dia por motivos bobos e quando vejo, eu poderia ter sido menos implicante com a temperatura bipolar, o tiozinho empacado na minha frente na escada rolante ou atraso no sistema do metrô. Isso se eu simplesmente entendesse que o segredo da caixa preta está na forma como a minha cabeça lida com o dia a dia. Sabe aquela de “pára o mundo que eu quero descer?” então...esqueça. Crie suas alternativas e reclame menos. Rotinices podem ter um sabor muito bom se soubermos prová-lo.

Ok, e daí então esse blábláblá todo?

Daí que dia desses achei um tumblr de uma fotógrafa, Bridget Fleming, que toca um projeto chamado Downtown from Behind. Ela tira foto por trás das pessoas andando de bicicleta pelas ruas do centro de Nova York e aproveita pra contar algo da vida dos seus personagens eleitos. Eu me apaixonei pelas fotos, pela ideia, pelo modo como ela consegue transparecer a simplicidade e criar um cenário novo naquele batido.

Um bom exemplo de como enxergar as situações com leveza.


  Bridget Fleming. Downtown from Behind.

Bridget Fleming. Downtown from Behind.

 Bridget Fleming. Downtown from Behind.

 Bridget Fleming. Downtown from Behind.

 Bridget Fleming. Downtown from Behind.

 Bridget Fleming. Downtown from Behind.


22 de fevereiro de 2011

Categoria fitness

Desde que abandonei meu saudoso ballet, lá pelos idos de 2003, venho aprendendo a lidar com este ambiente tosco peculiar que é uma sala de musculação. A verdade é que eu sempre tive um metabolismo muito acelerado e responsável por alguns apelidos carinhosos de infância como magrela, carne seca, Olívia Palito e coisas legais do gênero. Por isso, ao invés de sentar no canto de um sofá e praguejar contra os palhaços contratados de festa de criança que me davam esses nomes, resolvi fazer algo por mim e adentrar neste tedioso fantástico mundo do condicionamento físico.

As academias, por exemplo, têm um público que varia desde os frequentadores frenéticos, passando pelos preguiçosos esforçados (como eu), até os visitantes esporádicos. Adaptando o que havia disponível ao que os meus cambetchos em forma de perna necessitavam, procurei algo conivente com este metabolismo de papa-léguas que vos fala. O que encontrei? A musculação, um ambiente interativo repleto de máquinas de tortura e seres intrigantes que fazem barulhos estranhos. Com o passar dos anos eu fui variando entre visitante esporádica e freqüentadora, digamos assim, média - não são sinônimos, acredite em mim. Depois de um tempo e algumas mudanças, pude notar que, salvo o canal de rádio, certos detalhes não mudam quer você esteja no interior das minasgeraisuai ou na capital da Garoa.
Toda sala de musculação que se preze tem uma base de  público dividido em algumas categorias, a saber:

Categoria mamãe sou forte: corresponde a, aproximadamente, 70% do target. Esta casta é dominada pelo gênero masculino, embora algumas mulheres insistam em participar dela para a vergonha alheia da classe. Sua preponderância é notável já que seus indivíduos podem ser identificados a uma distância considerável porque, geralmente, carregam uma corrente de prata reluzente no pescoço e vestem um abadá de cores luminosas. Eu tento conter as lágrimas toda vez que vejo um abadá sendo usado como roupa, mas às vezes é difícil. O tipo é dotado de um amor próprio tão incrível que não me surpreenderia se a cama fosse um espelho só pra dormir abraçado com ele mesmo, assim como o teto e as paredes do quarto. Passam a maior parte do dia na saleta em questão, exercitando seus músculos, orgulho inveterado da classe. Bom mesmo seria se exercitassem o cérebro na mesma medida. Para as que têm gosto pela categoria, mas não por academia, não se preocupem! Eles podem ser encontrados em alguma rave com um pirulito de morango na boca e óculos de sol Oakley ou imitações tortas (mais provável).

Categoria ursinhos carinhosos: Possuem vasta semelhança com a categoria acima, mas têm um diferencial marcante que os obriga serem classificados de forma distinta: querem ser seu amiguinho! É aquele cara que adora te ajudar a trocar o peso de um aparelho, ele quase te persegue pra trocar todos os pesos, conversar sobre amenidades, temperatura do dia, comentar o quanto você está sumida e cumprimentar com beijinho no rosto – pra mim essa é pior parte, as pessoas estão suadas, qual a razão em fazer isso? Eles não estão interessados em saber se você quer papo, puxam conversa sem saber o seu nome e mesmo que recebam respostas monossilábicas ou um sorriso amarelo, continuam o monólogo como se nada tivesse acontecido. E por mais que se trace um roteiro estratégico de aparelhos para desviar deles, a tentativa é falha, eles surgem do limbo sempre com alguma conversinha xarope daquela. Alguns são mesmo carentes e não sobrevivem sem o beijinho de boa noite da mamãe. São os ursinhos carinhosos legítimos. Outros só querem se fazer passar por tal porque acreditam que assim as pobres moças vão se afeiçoar por eles. Uma lástima. Pras mulheres, claro.

Categoria cansei de ser nerd: é uma categoria curiosa e engraçada. Composta por aqueles que foram magrelos (oi, carapuça) e esquisitos a vida inteira, mas se cansaram da realidade injusta. Daí preparam seu kit de guerrilha e vão à luta. Eles podem ser identificados usando tênis branco e meia preta, bermudão, óculos de grau ou camisas de numeração três vezes maior. Alguns evoluem até demais reposicionando seu produto no mercado para a alegria do público feminino. Por outro lado, há os que jamais abandonam o seu posto geek e estão muito bem assim, obrigado. Desconfio que calculem friamente o tempo que vão levar fazendo a sua série versus tempo necessário pra terminar o download da última versão daquele programa de edição de HTML. São simpáticos e com humor sarcástico, só precisam tomar cuidado pra não serem acometidos pela síndrome dos ursinhos carinhosos. O vírus pega fácil.

Se você não se encaixou em nenhuma destas categorias, calma, não fique triste, há inúmeras outras por aí ao ar livre e até mesmo nas calorosas academias. Se você gosta de se mexer ou só finge mesmo, como eu, vai encontrar um habitat com facilidade, os atletas de fim de semana não me deixam mentir. Se não, o sofá com cobertor é sempre um lugar convidativo, só não adianta vir com lamúrias dos efeitos catatônicos.

14 de fevereiro de 2011

Google Street Art View

Quando o Google lançou o Street View, eu torci o nariz. Não pra tecnologia em si, mas para o uso lascivo que logo iria surgir. Torci porque acredito que o limiar entre tecnologia e privacidade muitas vezes se perde no meio do exibicionismo social.

A ressalva são as formas como podemos usar as oitavas, nonas e décimas maravilhas desse mundão geek sem porteira. Entre tantas cenas toscas, engraçadas, curiosas e dignas de vergonha alheia captadas por este decente país afora, uma empresa resolveu enxergar oportunidade e lançar uma plataforma digna de inovação.

A Red Bull montou o Street Art View, um site participativo que permite ao usuário ver as artes de rua pelo mundo e também cadastrar alguma que o próprio conheça. Ideia simples e alinhada ao valor da marca.

Exposição mundial de arte. Custo zero.

Dá para escarafunchar muita coisa aí e, dentre os autores, achei Keith Haring por acaso. Bem, talvez não por acaso se levarmos em consideração o seu reconhecimento no mundo da arte gráfica que eu desconhecia até então. A coincidência ficou mesmo por conta de eu ter visto uma exposição dele neste fim de semana quando perambulava à toa pela Paulista.

Mas voltando ao foco, não vamos ser hipócritas e dizer que um leigo ficaria horas aí fuçando todas as imagens, nem que eu quisesse, teria esse tempo. O cerne da questão é a iniciativa da marca em tomar partido de uma tecnologia recente e gerar conteúdo focado. Mandaram bembagarai.

Red Bull dá asas à imaginação. JB, Rio de Janeiro.

Mancebinho, não tô dizendo que o artista desta obra aí tomou um Red Bull pra turbinar a imaginação, porém é quase inevitável que o nosso cérebro faça uma associação da arte à ideia que temos da marca... catch the point!

De vexame alheio à ação de marketing. O limite da versatilidade de uso está nos olhos de quem não vê. 

13 de fevereiro de 2011

De domingo

Responda rápido: como você se sente vendo Zorra Total sábado à noite?
Né, não dá. Já sabemos os efeitos colaterais danosos causados ao corpo humano e por isso nosso cérebro evita essa situação da mesma forma que nos avisa parar de passar o dedo na chama da vela: “isso não vai acabar bem ”.

Agora, demos mais um passo e caímos no Domingo. Pense rápido, qual outro programa de TV vem a sua mente? Sim, é dele que estamos falando. O programa do Faustão me desperta o mesmo alarde que o do Zorra Total. Pra mim, ambos funcionam como um aviso de abismo sem retorno. É simples, direto e fatal. Você já está ferrado. Poderia ter evitado, mas está lá absorto pelo caminho.
A diferença é que, cá na realidade, antes da placa de abismo, há várias outras indicadoras pra te possibilitar mudar o rumo. A escolha fica a cargo do motorista, mas o espada ignora. 

Viabilidade econômica de produto de massa à parte, o que me faz torcer as tripas com esse tipo de programa é a mensagem subliminar entre as filmagens, dizendo algo mais ou menos assim:


E aí mané, beleza? Então o seu dia de descanso chegou depois da semana inteira ralando no trabalho pra pagar a conta de energia elétrica. Haha você é um grande idiota, parabéns. Fique aí mesmo deitado assistindo toda essa baboseira e comentando como vida alheia lhe parece ser bem mais interessante que a sua. Você até poderia estar fazendo algo mais interessante, mas a predileção pela banalidade fala mais alto. Melhor manter a cabeça no stand-by a ter que colocar a engrenagem pra funcionar .  Talvez tenha mais gente aí por perto né, também assistindo, e vocês só se falam para trocar comentários sobre o programa. Que convivência de merda. Amanhã cada um retorna ao seu trabalho ou estudo reclamando como não sobra tempo pra nada. Bem, vocês fazem por merecer . O que nós achamos ótimo, pois assim a audiência por aqui continua correspondendo às expectativas do nosso ROI. Caso vocês descobrissem o que há aí do lado de fora da janela, a brincadeira iria acabar. Então que tal mais um intervalo comercial pra você poder ir ao banheiro? Até o próximo bloco!

Pessoal entretido

Esse daí foi o lado endiabrado da minha consciência fazendo as vezes por aqui, porém há de se dizer que o inconformismo com a bunda no sofá ataca até o anjo de candura que neste corpo habita. Mas calma, não vamos culpar o pobre sofá. O meio pouco importa, o que vale é o uso que se faz dele. 

Não é necessário fazer de cada fim de semana uma vivência espetacular. Afinal até um certo cara descansou no sétimo dia depois de tanta labuta civil. Ficar em casa e jogar as pernas pro ar é uma delicia merecedora. O problema é quando, junto com as pernas, você joga todo o resto pro ar. As boas conversas, os chamegos preguiçosos, as mesas de café da tarde com a família ou de buteco com os amigos, como quiser. Tudo pro saco. Cada um acomodado num canto da sala olhando pra TV feito peixe de aquário, sem ter pra onde ir e achando que o mundo é aquilo mesmo. Nem um filmezinho pra contar história.

Eu já vi muitas vezes essa cena acontecer na minha realidade. E já fui coadjuvante também. Em todas as situações, há aquela sensação detestável de dia perdido. Mas com a percepção um pouco mais apurada, dá pra passar de espectador a protagonista e somar os domingos vividos no calendário.

8 de fevereiro de 2011

Ele que via

E então ele viu. Ele viu de uma só vez tudo o que já disseram. Tudo o que ela deveria saber. O que ela sabe e cisma em esconder. Nem precisou muito, bastou um olhar de lado e ele logo viu. Tampouco de espelho. Não ele. Talvez ela. Ele viu toda a graça e ele achou graça. Viu o sorriso, o jeito de mexer no cabelo. Logo ele que nunca tinha visto. Logo ele que pouco sabe. Ele viu e fez questão de mostrar, e ela entendeu o quão cega era, mas só fingia ver. Ele não estava nem aí. Ele via tudo muito simples, via melhor que quem já tinha visto. Ele não se gabava de si. Ele se gabava dela. Ela era demais. Ele achava que ela também via, mas nisto, somente nisto, ele estava enganado. Ele não via que ela não via até o momento de ele ver. Pena, ele se irritou. Mas ainda assim ele via além. E ele era paciente com ela. Ela não. Nem com ela nem com ele. Ela se perdia no emaranhado da sua cegueira. Ela não via o essencial, era invisível. Ela só sabia ver com os olhos. Logo ela que tanto sabe. Mas ele estava lá vendo todo o tempo.  Ele não se importava, só via. E o engraçado é que eles não se viam, só falavam. Como, então, ele podia ver? Mas ele sabia. Ele estava lá o tempo todo. Ele a via em outras sem vê-la. Só ela. E ela não via. Ela não sabia. Então começou a se cansar de ver. Ele estava vendo o que não queria, ficou tudo mais claro do que deveria. Ela queria tanto que ele visse. Ela não sabia. Ele viu tudo e começou a não ver mais. Ele viu tanto que se ofuscou. Ela não entendia. Ela queria ver. Ele não. E quanto mais ela tentava, mais ele se ofuscava. Ele já tinha visto demais. Ela perdeu a hora de ver. Ele a perdeu. Então eles se perderam uma última vez. Eles não viam mais nada. Daí ela entendeu. Ela viu. Ele passou para avisar que via. Ele passou como alguém que passava por ela para avisar que a chave ia cair do bolso de trás da calça. Ele avisou para ela não perder. Ele avisou para ela ver. Ele se foi. Hoje ela vê. E eles, não mais se vêem. Do mesmo jeito que nunca se viram.

27 de janeiro de 2011

Lar novo lar

Depois de um longo período tentando me acertar com algum template no mínimo decente, resolvi criar um layout que desse para o gasto e voltar a escrever.

Tio Jobs certa vez disse em um de seus discursos Applenianos: "concentre-se no que você é bom, delegue o resto". Eu não deleguei nada, teria que pagar pra isso e sou pão dura. Migrei do Wordpress para o Blogger que tem uma plataforma mais simpática com os leigos em html, css e afins.

Sem mais firulas, o blog vai funfar agora! Tem gente me cobrando há meses e mandei logo um inseticida na procrastinação. 

Nada como uma mudança!

Há textos antigos aqui cujo conteúdo e estilo são verdadeiramente duas bostas. Mas eles vão ficar aí. São garranchos do primeiro caderno de caligrafia e não menos importantes. Li muitos blogs no último ano que me ajudaram a ter uma visão menos clichê, o que não me impede de cometer deslizes. Li sobre gente que tá aí se jogando por entre os concretos da cidade e vi que a selva de pedra também tem seu valor.

No mais, a casa vai se ajeitando, ganhando decoração, cores e visitantes, assim espero! :)






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