2 de julho de 2013

27 Lições que aprendi em São Paulo

Em homenagem ao meu aniversário de 27 anos (não sei porque estou achando essa idade cabalística, deve ser coisa do 7, ou porque está perto dos 30...), resolvi publicar aqui uma lista dos principais ensinamentos nesses três anos e meio de sobrevivência convivência:

1. Leva-se apenas um dia pra entender que roupa social, chinelo e mochila combinam depois de chegar em casa com sete bolhas em cada pé porque insistiu em ficar ~de salto~ até no metrô.

2. Virar workaholic, cortar o cabelo e fazer uma tatuagem é como plantar árvore, escrever livro e fazer um filho. Nem todo mundo faz, mas estão aí implícitos no sistema.

3.  Padarias são templos. Encontrar uma sempre te aquieta a alma.

4. Os ônibus obedecem à Lei de Paretto: os 20% que conseguir pegar virão de 80% do seu  esforço.

5. O trânsito nunca está tão ruim que não possa piorar.

6. Ironia do destino é ir cantar num karaoke e gostar. E voltar.

7. No dia que você tirar o guarda-chuva da bolsa porque está pesando o ombro e há dias não chove, vai chover. Às 18h. :)

8. Pubs fazem parte da política de contingência do trânsito. Tem sempre um perto do trabalho e você não vai conseguir voltar dirigindo.

9.  A Augusta é o briefing do Apocalipse. E as filas dos fiéis são enormes. 

10. Na dúvida, peça pizza.

11. Nunca, jamais fique do lado esquerdo de qualquer lugar.

12. Visitas significam comer sanduíche no Mercadão e deixar dinheiros na 25, sem culpa. Você vai porque precisa acompanhar. 

13. Sua bolsa terá tudo o que precisa pra sobreviver, desde que haja luz, tomada e wi-fi.

14. O número de pessoas na sua frente na lista de reserva do restaurante é proporcional às horas que você está sem comer.

15. Não poder pagar com cartão é como não poder beber água.

16. Todas as pessoas vão perguntar primeiro o que você faz, depois o seu nome. E você vai achar estranho até fazer igual.

17. Seu carro torna-se um abrigo de guerra, dá pra passar dia e noite dentro. Se ainda não é, providencie.

18. A Vila Madalena aos domingos é a promessa de um mundo melhor.

19. O Ibirapuera vai te convidar a fazer planos de corrida, você vai desistir depois do primeiro sábado lotado e vai incrivelmente se reanimar depois de ver os preços das academias.

20. Você vai acabar pagando uma academia depois dos primeiros meses.

21. Festivais (SWU, Lolla, Terra, etc). Vá antes que seu eu-fresco te domine.

22. Segunda-feira é um bom dia pra sair. Aliás, todo dia é um bom dia pra sair. Só quem discorda disso é o seu bolso e seu chefe.

23. Ir ao cinema sozinho pode ser considerado uma atividade social.  

24. Os grupos de amigos são separados por categorias. Misturá-las seria um erro de mercado.

25. Comer com o garfo E a faca na mão não significa que você é mal-educado, apenas que está com pressa. Toda vez.

26. À noite, ver a cidade de cima é mais legal que o céu de baixo. 

27. Ninguém entende porque você reclama da cidade e não se muda. É que lugar nenhum consegue ser tão ordinariamente excepcional como São Paulo. 

Créditos: When you live in SP

16 de maio de 2013

Sem amor, por favor


Não sabiam o que era, mas de amor não se tratava. Tratavam mesmo de tudo aquilo que lhes interessava, da conversa boa, demorada, deitada em copos de cerveja e fotografias das viagens nunca feitas. Tratavam de um sexo ofegante, quimicamente destrutível, insaciável e incurável, como se não houvesse amanhã. Tratavam do trabalho com o maior dos caprichos, das oportunidades feitas a mão, de desvios e acertos, das dicas arriscadas de quem prova a primeira colher do pote de doce, só pra preencher o portfólio do ego. Tratavam das risadas soltas quando juntos, de procurar motivos bobos, revelando-se em cada um deles aquele sorriso de lado, uma covinha e um olhar sabido, de quem não precisa traduzir o que pensa. Tratavam de se dar bem, enganavam os mais desavisados, burlavam todas as regras, inclusive as próprias. Tratavam a sinceridade com a mais medíocre das verdades, emboladas num discurso econômico, em palavras contidas e mensagens de celular ignoradas. Francamente, DR não estava nos planos. Tratavam de se sobrepor a todo o momento, num xadrez imaginário de jogatinas. Cheque-mate.

Não sabiam o que era, mas de amor não se tratava. Ele, tratava de irritar. De fazer raiva, dar coceira com as piadas idiotas dos mesmos motivos bobos, antes revelados naqueles sorrisos de lado. Tratava de ser imbecil randomicamente, de encher a paciência com o gás do seu ego, tão inflado a ponto de não sobrar qualquer espaço na cama. Ela, tratava de confundir. De misturar as palavras, usando o não dito de camuflagem, com toda a licença poética do drama feminino. Tratava de ser neurótica quando menos poderia ou deveria. De inventar seu lugar no abraço dele, abraço esse que só existia no descanso da cama depois de mais uma noite dividida. E não por acaso desconfiavam tratar-se exatamente disso, de ter esgotado a reserva pra dois. Vai, pode deixar sua credencial aí na mesa mesmo e sair. Apego também não estava nos planos.

Não sabiam o que era, mas de amor não se tratava. Trataram, de repente, de se esquecer, trocados, simples como uma nota de 20 reais. Baratos como aquele humor oportuno dos sorrisos de lado disfarçados. Tratou de ignorá-lo com a leveza do seu desapego, de quem troca a cor do batom e engaveta aquele roxo gasto já sem graça. Nada com um vermelho novo e vivo, ou até um rosinha claro mais aconchegante, não importa, qualquer outro serviria para as noites de inverno. Tratou de conquistar quantas mais fossem, reafirmando seu posto de suposto comando, levantando a guarda e o que guardava por baixo da roupa. Aqui, meu bem, o que você perdeu, ó, tá vendo? Sinceramente, não. E insistência nunca esteve nos planos. Trataram de sumir.

Não sabiam o que era, mas de amor não se tratava. Trataram, um dia, de se reencontrar, jurando o menor dos apegos. Uma cerveja, pra ficar pensando melhor. Trataram de todos os assuntos corridos durante o vácuo da distância daqueles últimos meses. Ou foram anos? Não importa, parece que ninguém havia mexido naquela mesa com a credencial, ou mudado a posição dos pensamentos. Os mesmos motivos, os mesmos sorrisos de lado, os mesmos olhares sabidos e as mesmas jogatinas. Estavam todos lá, cobertos por um tempo empoeirado, mas ainda tão presentes. Trataram de pagar a conta e se apressar enquanto a noite os desafiava a dividirem o tesão, uma vez mais. Pelo bem de hoje. Vai meu bem, só por hoje, deixa a gente se tratar, eu quero te sentir. Sabe, mesmo que o amor não esteja nos nossos planos, você, assim, de corpo e alma leve, sempre esteve.

touché!
Nota: esta é uma crônica experimental, pra variar dos posts pessoais.

17 de agosto de 2012

De mais pra menos

Chico me fala coisas bonitas, exus me falam coisas bonitas, a mãe, o pai, o irmão, a tia, meu chefe me fala algumas coisas bonitas, a vida, ô, essa me fala coisas bonitas. Meu cachorro me late coisas bonitas. Meus cactos de mesa, acredite, me apontam coisas bonitas. Minha manicure e meu cabeleireiro adoram me falar coisas bonitas e até o garçom da padaria de hoje de manhã veio dizer das coisas bonitas. Meu espelho, às vezes a contragosto, me conta coisas bonitas. Meu diário me revela coisas bonitas e o futuro diz ter ainda um punhado delas. Meus amigos são putas veias no assunto de coisas bonitas.
E você, bem, você tasca a massa corrida no tijolo pra garantir um arroz com feijão na hora que a vontade bater. Mas perdoe-me, deve ter sido negligência minha não ter lhe contado sobre o efeito que há das coisas bonitas na gente que é assim, mulher. Ah, só pode ter sido isso. Alguém precisava te ajudar a fazer a lição de casa além de bater leite com pera. Mas não se preocupe não, que ainda é tempo.... de você achar esse alguém.


Nota: para um blog semiabandonado, um semiparágrafo. 

22 de fevereiro de 2012

Dia de Carnaval

Tem quem ame, venere, odeie ou despreze. Tem quem adapte o calendário e só pegue a senha do início do ano lá pro fim de fevereiro e quem gostaria de enforcar o feriado a olhos vendados. Gostando ou não do leleô, vamos admitir, é difícil passar ileso pelo Carnaval. Mas também é perdoável, no carnaval tudo se absolve, tudo se explica. Como em parênteses, sabe?

Diz a senhora Wikipedia o seguinte:

Um parêntese é uma palavra, expressão ou frase que se interpõe num texto para adicionar informação, normalmente explicativa, mas não essencial. A característica fundamental dos parênteses é não afetar a estrutura sintática do período em que é inserido.

Quer dizer, você tá lá começando o ano cheio das promessas, ondinhas puladas e aquela interminável lista to-do jurando que, nesse ano, a sua dignidade humana vai aumentar. Mas aí logo no segundo mês chega o capeta travestido de Carnaval e você entra lindamente na fila do pecado. Fica tranqs, amigo, que o inferno taí pra ser curtido e compartilhado. Não importa o tamanho ou alcance do seu feito, quando você contar ele será excepcionalmente inserido em parênteses (era carnaval...) e todo mundo vai poder respirar aliviado na mesa de jantar, passando a salada adiante na mais perfeita normalidade. Porque né, já que a intenção é “não afetar a estrutura sintática do período em que é inserido” pode-se dizer que esses quatro dias vêm embalados a vácuo. Tá todo mundo ali dentro sem espaço, se esbarrando, se misturando, se acabando, se lascando. Mas tudo explicado e chancelado pela regalia do parênteses carnavalesco. Então, querido, se você vestiu a fantasia da vergonha, não se acanhe. Era carnaval.

Claro, há consequências. Humanas, até. Afinal se eu tô aqui batendo meus dedos nas teclinhas do computador, é porque meus queridos progenitores um dia se encontraram no carnaval e foram felizes para sempre. Uma simples amostra da provável existência de vários baby-boomers-geração-fevereiro esquentando o capitalismo do século XXI. Mas vamos deixar o erro de controle de natalidade pra lá. Fato é que a parte do felizes para sempre pode ter um prazo bem mais reduzido, afinal um parêntese “adiciona informação, normalmente explicativa, mas não essencial.” Ou seja, seu parêntese pode até ter sido uma boa atuação, mas talvez acabe ali mesmo. A possibilidade de virar parágrafo  vai depender dos detalhes ali dentro.
E da vontade em querer explicar mais...

Veja bem, até o título deveria estar seguido de parênteses (autorais).



11 de novembro de 2011

Novo, de novo

Quando a gente ainda mede a altura com lápis na parede e relógio não representa nada além de uns rabiscos imaginários no pulso, tempo significa apenas uma coisa: descoberta. Passamos boa parte da nossa então minúscula vida importunando nossos pais com milhões de porquês. Ora, alguém precisa explicar, afinal, por que você ficou o dia inteiro com sede depois de engolir beber tanta água do mar nas férias de verão, mesmo ouvindo sua mãe dizer pra não fazê-lo. Poxa, era água. Nada como a experiência própria.

Você vai descobrindo da vida e ela de você. Como vão passar um bom tempo juntos, é bom irem se conhecendo logo. Você descobre que seus avós muitas vezes são mais legais que os seus pais, mas que talvez isso não seja o melhor pra sua noção de mundo, embora teime em insistir no contrário. Descobre também que seu irmão tem necessidades iguais às suas, o que significa que os brinquedos não são de sua exclusividade e que o vídeo-game é uma honra a ser conquistada. Quase sempre no tapa. E não importa quem começou a briga, vocês sempre vão dividir a culpa, assim como o castigo e as pazes. Você descobre que existem alguns poucos colegas que, curiosamente, estão sempre do seu lado nas fotografias, no dia em que mataram aula e quando foram pegos. Você não sabe por que, mas gosta um tanto deles. Eles são seus amigos, mas isso você só vai descobrir mais tarde. Você descobre o primeiro beijo, o primeiro amor e a primeira vez. E que nem sempre o primeiro é o melhor, mas que o pódio foi seu impulso pra ir mais alto.

Então você cai. Cai e dói pra burro.

Você não imaginava o quanto uma decepção pudesse doer e descobre que lágrima não é acesso vip pras suas vontades. Ela agora vem em sentido contrário, te derrubando no meio do caminho. Mas você aprendeu desde novo que depois de tombo se levanta e já sabe o que fazer. Você descobre que vento na cara, água gelada e pés descalços são coisas pra se curtir, não pra evitar. Descobre que a faculdade é sua chance de emancipação e que as roupas não aparecem lavadas e cheirosas no seu guarda-roupa pelo milagre da Nossa Senhora do Omo.

O que você não percebeu, até então, é que dentre todas as curiosidades era normal ter alguém por perto vivendo o mesmo momento, com você. Por mais que isso significasse sua derrota na disputa do videogame, afinal seu irmão era maior e mais forte. Você e a vida não estavam sozinhas, havia sempre um terceiro elemento te amparando. Ou aparando. E se as podas servem para acelerar o crescimento numa só direção, eis que aí está você, crescida, nutrida e sabendo das coisas, né?

Errado.

Você agora dá de cara com a vida. Sem ninguém pra opinar, corrigir ou ajudar. E você descobre que sabe bem menos do que imaginava. Inclusive a si própria. Você ficou mais séria, responsável e aqueles rabiscos do relógio tornaram-se reais. Tempo virou artigo raro de coleção. Clichê. Você já assinou o seu contrato vitalício de independência e vai ter que reaprender a descobrir. Inclusive a si própria. E não importa se você ainda não descobriu exatamente pra onde quer ir. Simplesmente vá.


Há dois meses, eu decidi fazer a minha primeira viagem sola, com a minha primeira economia, do meu primeiro trabalho oficial. O que já é bem comum pelas bandas daí afora, fato. Tanta gente metendo a fuça no mundo, eu é que não vou ficar parada olhando o branco da parede. Mas tirando as poucas almas que me apoiaram, tudo o que eu ouvi (ou vi nos olhares) foi algo variando entre:
"Nossa, sozinha... qual a graça?"
"Mas é arriscado!"
"Doida..."

Quinze dias, três destinos e uma mochila.
E cê sabe, eu tô torcendo pra que eles estejam certos.

Oxalá!

"Mas o que pode valer a vida,
se o ensaio da vida,
já é a própria vida" 
(Milan Kundera)

28 de outubro de 2011

Quem vê de longe, vê melhor

O fato é: eu nunca fui muito adepta à repetição.

Não que a rotina seja tão insuportável. Eu gosto de comer torrada pela manhã, me enfurnar num filme nas tardes de domingo e manter a tríade noturna trabalho-casa-academia, mesmo que isso custe os pandas da cara nossa de todo dia. Eu só não curto muito fazer tudo isso sistematicamente do mesmo jeito e no mesmo lugar, sempre. Se eu tivesse que ganhar a vida batendo prego, talvez eu arrumasse um jeito de inverter as partes, ou pintaria os pregos por tamanho ou faria buraquinhos em forma de desenhos. Não que fizesse grande diferença (ou fosse dar certo), mas ao menos eu não ia morrer de tédio.

Daí que eu comecei a aprender o significado de mudança antes mesmo de decorar a tabuada, o que causava alguns pequenos sustos em casa, ainda proporcionais ao meu tamanho, mas suficientes pra provisionar o estrago a longo prazo. Não raro minha mãe encontrava os móveis da casa em lugares alternados numa bela quarta-feira qualquer chegando do trabalho. Ou ainda se deparava com o guarda-roupa (dela, pra tristeza dela) mexido, ou com o meu cabelo colorido de papel crepom azul aos 12 anos, ou com as minhas malas. Coitada, teve que se acostumar. 

Nessa de mudar, começaram a ter pessoas envolvidas e rolar um agravante. Distância. Afinal, a gente só sabe que fogo queima depois de ter a pele arrancada por brincar com resto de vela. Não que eu tenha alguma noção de como controlar esta merda chamada distância, eu simplesmente gostaria de comprimir as pessoas que estão longe e transportá-las comigo em tamojunto.zip, o que ainda não foi possível, como se vê. 

Mas se tem uma coisa que alguns bons kilômetros no chão ensinam é a enxergar. No meio de um auê, a gente adora o mote “pedir opinião pra quem está de fora” e não é à toa. De longe se vê melhor. Se a distância me faz lembrar a cada segundo de quem eu amo e da saudade absurda que eu sinto, ela também levou o que já não importava tanto. Porque é justamente na falta que se faz a presença, uma bela ironia quando sucedida por um reencontro. Hoje, eu sei por quem vale a pena percorrer 700km, virar noite arrumando mala só pra passar 48 horas juntos e ter que voltar com o coração rasgando, mas ainda tão feliz. Mudar é bom, partir é assustadoramente delicioso, mas tão bom quanto, é manter os vínculos certos e ter pra onde voltar. E isso eu não quero mudar nunca. Nem que eu tenha que passar a vida batendo prego.


Durante a faculdade, a gente conhece zilhões de pessoas. Hoje, eu tenho meia dúzia delas.

De longe, a minha melhor escolha.



"I hope you have found a friend"


31 de agosto de 2011

Doce Agosto



São quase seis horas da última tarde de agosto de 2011. Tem gente agradecendo o fim do que parece ser o mês mais arrastado e lazarento do ano. Tem frio, chuva e engarrafamento do lado de fora. Nenhuma desobediência ao ritmo paulistano. Mas, alguma coisa acontece no meu coração. Sempre desconfiei que essa demora de agosto tivesse motivos justos escondidos e hoje eu bem sei por que o calendário parece ser tão insistente nessa época. Hoje, esses dias podiam durar um pouquinho mais só pra me fazer lembrar que sorte não é patenteada pela mega-sena, embora eu já tenha escolhido meus números favoritos. São 365 dias de vontade, 24 horas de persistência e 60 minutos marcando continuos recomeços. Não é pra menos.

Você me ensinou o significado de preocupação aos sete anos de idade, convenhamos, um tanto cedo pra quem tinha por grandes ocupações mirins conciliar o horário do Cavalo de Fogo com o ballet. Os papéis de carta manchados a seco ainda guardam na gaveta o choro silencioso das tardes de domingo, supostamente feitas para nada além de sorvete, sol e encontros. Vi minhas barbies se aposentarem e meu medo crescer fazendo hora extra. Foram 18 anos espreitando aquele lugar vazio na mesa de café da manhã, ouvindo o teu silêncio no almoço e convivendo com a tua ausência à noite. Aliás, se tem uma coisa que me fazia companhia no seu lugar, era esperança. Boba, mas tão verdadeira. Mesmo que como nota de rodapé nos meus sonhos. Um dia eu me lembraria.

Então eu saí de casa e, pra te falar a verdade, eu empacotei o descaso junto com a minha mudança que, por ironia barata, você me ajudou a fazer. Eu experimentei ir ver como é que funfava a rotina sem ter que tirar a angústia do armário todo dia pra vestir. Meus vinte e poucos anos imploravam por uma greta de ar e lá fui eu tomar fôlego para, depois de quatro anos, voltar a mergulhar no sufoco. Aí, você bem sabe, a coisa desandou. Unimos nossas arrogâncias em discussões e farpas trocadas ao longo dos dias. Foi o verdadeiro inferno astral sem data marcada. Eu não aceitava mais e tampouco queria aquela velha verdade de volta, feito um inútil papel desamassado. Peguei novamente a minha mala e fiz o que já estava bem acostumada a fazer. Ir embora. Definitivamente.

Veio o alívio me fazer companhia, veio a saudade e veio agosto. Nada muito incomum, exceto pelo que mudou. Foi preciso apenas uma ligação para eu pegar aquela esperança guardada e me jogar na melhor certeza que já tive. Era incrivelmente real a mudança, até quase assustadora. A euforia me anestesiou de todas as mágoas e a distância foi mero detalhe para a minha felicidade. Poder jogar conversa fora nas tardes de domingo já era a maior realização. Nunca pensei no tamanho valor do óbvio. Nunca pensei em adotar um mês assim tão mal-falado como preferido. Hoje, um ano depois, sabemos que ainda há muito a ser acertado e compreensão é o primeiro item da nossa extensa tarefa de casa. Literalmente.

Enquanto isso, só espero dizer... até o próximo agosto. 


19 de julho de 2011

Quem poderá nos salvar?


Da porta pra fora, quem se garante?

Pensa na cena. Férias de julho, fim de tarde, casa de vó, conversinhas despretensiosas enquanto espera a máquina de waffle bajular nossa gula. A vida é boa né não? E fica ainda melhor quando sua vó coloca três waffles em perfeito estado de matéria na sua frente com um império de requeijão e manteiga pra você se jogar. Pois bem, tava ali celebrando toda a sorte de pecados capitais quando veio a dúvida atroz, porém necessária: vó, pra quem a senhora vai dar essa belezura dessa máquina de waffle?? Sei não filha, tá sem pretendentes. Jura? Tô me candidatando então tá. Tá.

Tempo passa, acaba férias de julho, acaba fim de tarde, casa de vó fica a 700 km, só pra entretenimento imaginário, acaba vidão. Oh dó! Que hacer ahora José? Eis que vó vem à capital. Esqueci de dizer que vó, além de fazer o melhor waffle do mundo, é despachada, moderna e usa MSN. E você aí da década de 80 se achando muito atualizado. Vó passeando pela minha modesta moradia se solidariza com a inanição de guloseimas. Pobre neta sem waffles! Vó então diz que vai antecipar a herança e providenciar o transporte da máquina da felicidade. Meses depois a tão esperada encomenda chega. E mais, veio com receita. Sabe como é, coisa lendária aprimorada por anos, pra fazer Ana Maria Braga largar carreira artística, botox e ir morar numa casinha de sapê no interior. Até aí tudo lindo. Problema é que o talento não veio junto com a entrega do correio. Neta faz a receita, coloca a massa na máquina, espera mágica, mágica falha. Massa escorre pelos lados, gruda, queima na lateral, miolo fica cru, máquina cospe fumaça, cozinha embaça. Todo um dom especial pra desastres envolvido. 


E o que era pra ser um belo café da tarde de um gostoso domingo de inverno, vira essa cena lamentável. Vira neta desesperada achando que vai botar fogo na casa e pensando no carro de bombeiros embaixo do prédio, multidão se aglomerando na rua e ela se justificando pras roomates “olha, era pra ser pra um waffle, não um incêndio, mas eu tirei as roupas do varal e salvei as plantas, vai ficar tudo bem”. Gente, um waffle. Vamos refletir. Que é que custa pro bendito dar certo? Por que intuição falha quando passa na porta da cozinha? Alô Amélia, telecurso 2011 djá! Não é possível, eu já tive mais dignidade com uma panela na mão. Prova que meu macarrão carbonara nunca matou ninguém. Até onde eu saiba.

Mas aí vem um waffle de receita espiritualmente patenteada e prova que você é um mero embrião gastronômico comparada à sua vó. Detalhe, com chances ínfimas de evolução. Porque né, convenhamos, as espécies antes tinham muito mais tempo pra se aprimorar e deixar Darwin feliz. No meu caso, Murphy fica com todos os créditos. Eu só penso no que vai ser da minha neta. Talvez ela encontre um final feliz no setor faça-você-mesma do supermercado. Caso contrário, a máquina de waffle vai estar lá, pronta pra batalha final. E como boa vó, eu vou estar lá, rezando. Apoio moral é tudo minha gente.

28 de junho de 2011

Deus não dá asa a cobra mas abre via de acesso

Eu já havia perdido a conta de quantas vezes minha memória registrou a mesma cena. Era à noite, final de domingo e da sensação inquieta de esperar trocar o conforto de casa pelo banco do ônibus varando noite a fio. Eu nunca consegui explicar o que se passa comigo nessas horas. Vai ver nunca quis, a sensação de pegar a alça da mala pra ir embora me ascende um gosto tão grande pelo desconhecido que o frio na barriga acaba roubando a vez da saudade antecipada. De companhia de viagem marcavam presença meu fone de ouvido, uma jovem senhora e um mero detalhe: minha incapacidade de dormir. Foi o motorista ligar o motor da carcaça e arrancar a primeira pra senhorinha do meu lado sacar o terço do bolso e começar a rezar. Forte. Se desse pra cumprir penitência por osmose, teria pago todos os meus pecados ali na hora. Até porque ouvi um papo nesses dias de que eu estava precisando “encontrar com Deus”. É, marcar um horário, colocar a conversa em dia e agradecer por ter cinco dedos nas mãos e nos pés, essas coisas. Só espero que não tenham pensado nisso de uma forma literal. Vai saber. Somando então 12 horas de estrada com tantas ave-marias do meu lado cheguei à conclusão cartesiana de que isso só poderia ser um sinal dos cosmos pra colocar as pendências em dia e fazer um balanço de resultados no departamento celeste. 

Olhei lá praquele lugar de onde saí e não pretendo voltar, minha cidade natal, Ubá. Ubá é o tipo usual de roça cidade do interior de MG. Igreja, praça, banco da praça, carrinho de pipoca da praça, velhinhos sentados na praça e beatas à espera do juízo final. Eu não sabia muito do mundo além dos das aulas de geografia e programação de férias escolares, porém do alto do meu imaginário infantil desconfiava que pudesse existir vida além daquele perímetro pseudourbano. Não demorou para os anos alcançarem minhas pernas e ficarem para trás junto com a poupança Bamerindus. Você sabe que existiu, foi até legal, mas não teve potencial pra durar. Eu poderia ter ficado lá e feito uma faculdade morando no conforto de casa, eu poderia ter poupado a dor de cabeça dos meus pais (coitados), eu poderia ter arrumado um trabalho qualquer e vivido tranquilamente. Eu poderia não ter crescido. 

Não é bem em cima da via que você deve ficar.

Dizem que oportunidade é a gente que faz. Só esqueceram de avisar que não existe receita pronta, ou seja, por aqui ainda se quebram os ovos. E a cara. Como sorte de ouro não veio no pacote da cegonha, conformismo também ficou pra trás. Era mais fácil convencer um elefante de que ele não pode voar do que manter meus pés no mesmo lugar. Doooois anos foi o tempo gasto para conseguir embarcar num intercâmbio junto com o resquício de proteção caseira. Mal conhecia o significado da palavra independência e já me achava no infame direito de ter domínio sobre a direção do meu nariz. E lá foi a incauta conhecer Tio Sam de mãos dadas com o perrengue. Não satisfeita em quase fazer minha mãe parir um quarto filho, resolvi então girar o mapa em direção à Bahia e me jogar numa experiência maluca, trabalhando num hotel e colecionando horas de sono como figurinhas premiadas. Ainda não contente em ensaiar saudade, vim fincar minhas trouxas nesses belos blocos de concreto de cada dia.

Acabei encontrando no caminho um sinônimo mais legal pra férias do que o sofá da sala. Porque não saber o que vem depois da próxima curva ficou mais gostoso do que o roteiro programado da atoice. Porque, simplesmente, viver ficou melhor que sonhar. Até dividir o espaço com São Paulo pode ter sua recompensa, mesmo que a rotina aperte a sanidade. E foi desse jeito meio torto que eu pude ver o quanto o mundo era maior do que a praça da igreja. A boa notícia era, eu poderia ir sentar no banco de qualquer uma delas. A condição, desde que usasse as minhas pernas pra isso. E olha, não tem regalia nesse mundo que pague uma dose de conquista, ainda que a conta-gotas. Enquanto a galera lá de cima se diverte em testar meus limites, eu apenas aumento o tamanho do elástico.

1 de junho de 2011

O metrô mais bonito da cidade


Depois de ter lido esse post com a opinião mais bonita da cidade e ter xeretado alguma coisa do frisson na internet, eu só pude concluir que o melhor da música Oração foram as paródias. O vídeo viralizou tanto que as letras aleatórias viraram praticamente memes.

Então resolvi dar minha singela contribuição com os versinhos abaixo.
Diferenciados do meu Brasil, tamo junto!

Acompanhe o vídeo com a letra e meta o pé na vogal estendida. Cifra é para os fracos.




Confusão - O metrô mais bonito da cidade

Por favooor, essa é a úuultima estaçãaao
Chega dee dar eeempurrão
O vagão não é tão grande quanto pensa
O que é que custa você dar licença
O trem eemperrooou
Atrasou a linha inteiraaaaaa
E ainda ée seegunda-feeiraaa
Ninguém embarcooou


Seu Kassab, poor favooor...

 (repita 857 vezes)





Todos os direitos autorais estão reservados. Se alguém reproduzir esta letra sem citar a devida autoria, vai arder no inferno com Luan Santana cantando Meteoro da Paixão em acústico pela eternidade. 
A profecia está lançada, não diga que não avisei.

27 de abril de 2011

Fundo de quintal


Não, ninguém bebeu, isso aqui não é uma alusão a crenças pagodeiras e você não caiu no blog errado (ou sim).
Ocorre que a dona desta coisa que ela gosta de chamar de blog, porque é das modices internéticas, publicou um texto no Papo de Homem e nem se dignificou a reproduzir o ato aqui, nesse mausoléu abandonado.  Então resolvi me pedir perdão e pagar os pecados a tempo.
Agradeço ao Guilherme pela paciência da edição. Apareceram várias boas almas querendo salvar o layout do BC. Está difícil selecionar, só chegam portfólios legais e gente muito da interessada. Estamos pensando numa maneira de fazer um desenvolvimento coletivo para absorver o máximo que conseguirmos. Wait and see!
Justiça seja feita, aí vai o post falando do movimento literário mais delícia cremosa que está tendo. Ah, peguei as mesmas fotos e legendas, créditos para o PdH por favor. Obrigada.

"Já pensou no mundo como uma biblioteca a céu aberto, onde os livros circulassem por diversos países e fossem lidos por inúmeras pessoas? Em tempos de difusão dos e-books, parece ser uma ideia pouco aplicável, mas está em pleno vigor e tem nome.

O BookCrossing (BC) é um movimento literário mundial que consiste na prática de três pilares: Ler, Registrar e Libertar. Após ler um livro, o leitor liberta-o num local público para ser encontrado por outra pessoa que, por sua vez, deverá fazer o mesmo. Cada livro possui um código, o BCID, criado automaticamente pelo site no momento do primeiro registro.
Na contracapa, há uma breve explicação sobre o movimento, além de um convite para os próximos leitores registrarem o local em que a obra foi encontrada, assim todos poderão rastreá-la. Os próprios leitores podem libertar seus livros criando um novo código BCID ou doá-los aos voluntários do BC em algum ponto fixo.

Me leva pra casa, manolo!
  
Ao cadastrar-se no site, o usuário está apto a todas as formas de compartilhamento de informação como resenhas, artigos, fóruns de discussão e críticas. Atividades para incentivar e dividir as experiências entre os participantes, chamados bookcrossers.
O projeto teve início em 2001, quando um programador americano, Ron Hornbaker, identificou a oportunidade de se compartilhar e rastrear livros pela internet tal como era feito com notas de dólar, selos e figuras de coleção.
A ideia já movimentou mais de 6 milhões de livros por meio de 900 mil bookcrossers em cerca de 130 países. A equipe mantenedora está estabelecida em Sanpoint, Idaho, nos EUA, e conta com voluntários pelo mundo todo que fazem a locomotiva literária andar.
O Brasil está em 17º no ranking mundial de participação com 7 mil leitores e os parceiros e Pontos de mantém um site exclusivo com atualizações de notícias, eventos e ações de libertação dos livros no país.

BookCrossing em ação
A equipe brasileira procura agora um voluntário que possa desenvolver o site e aprimorá-lo, ajudando o BC a expandir suas fronteiras em terras tupi-guarani.
Os requisitos do programador são:
  • Dominar a plataforma WordPress;
  •  Desenvolver em PHP;
  • Dominar o Google Apps;
  • Fazer edição de imagens PSD/PNG. 
Se você quiser contribuir ou sabe de alguém que possa, entre em contato com esta que vos fala pelo email claraufv@gmail.com. Também é possível nos ajudar indicando estabelecimentos para tornarem-se um ponto de BookCrossing ou mesmo resgatando aquele clássico do fundo do armário e libertando-o no mundo.
Confesso, à primeira vista não é fácil aceitar a ideia de nos desfazermos dos nossos livros, já que criamos uma cultura de apego material e vínculo emocional a eles. Mas tão logo a vontade de compartilhar a experiência de uma leitura torna-se maior do que a de guardar tantos volumes numa estante.
Quem sabe livros são como homens, precisam se perder para se encontrar."

Para acessar o original clique aqui.
Então, tá esperando o que pra desovar sua prole literária, criatura?
:)

5 de abril de 2011

Lá de longe

Como não é novidade pra quem bem me conhece, eu adoro recordações. Sou daquelas cancerianas encasquetadas que, se pudesse, guardava cada pedacinho da vida numa caixa de papel só pra poder abri-la às vezes e sentir aquele momento de novo. Sou apegada às pessoas que me marcam, aos cheiros que descubro (tenho nariz de tatu) e aos lugares por onde passo. Chega a ser patética toda essa afeição. Fico relembrando aquela fatia que eu degustei, lambi os dedos e não me conformei quando acabou.

Daí a gente cresce. A caixa vai ficando maior, somando lembranças e ocupando um puta espaço. Eu, sem saber o que fazer com tanto peso, vou guardando umas fotos aqui e uma memória ali pra ver se consigo acomodar toda a tranqueira. A cada ano, o conteúdo dela cresce mais e mais feito bolo com dosagem extra de fermento que vai transbordando pelas bordas. Até não sobrar mais espaço, me restando enfiar os pertences do passado nos quatro cantos do presente. Pronto, disparou o alarme da nostalgia ensebada. Com toda a sabedoria de um jegue, eu peguei a minha caixa cremosa, colorida, coberta de chantilly e perfumada de lembranças e coloquei-a bem no meio do caminho, com direito a tropeço e praguejo. Depois do tombo e da cara quebrada, eu resolvi dar uma olhadinha pra trás pra ver o que estava me empacando. Qual não foi a surpresa frente à autoconstatação.

Não sei dos outros, mas eu tive uma vida bem legal até então. Simples e deliciosamente aproveitada. Infância nos conformes, brincava na rua, pendurava em árvore e vivia com o joelho esfolado. Adolescência digna de semvergonhices e faculdade muito bem vivida. Ah, a faculdade... quatro anos pra se guardar num potinho a sete chaves. Viciosa, para os íntimos, me rendeu a melhor época da vida.  Sabe, tava muito bom pra eu querer crescer. Mas caso o calendário poupe alguém, por favor me avise pra eu tirar as devidas satisfações com o tempo. Pois logo acabou a fase da malemolência e me tiraram a graça da despreocupação como quem tira doce de criança. 

Jura que meu tempo acabou?
Meus amigos agora marcavam presença na caixa de emails enquanto eu marcava vaga de emprego. Ficou tudo assim, meio sem graça, meio sem cor. Sem pensar muito, eu me vi na realidade cinza de São Paulo, aprendendo sobre números, direções e dissabores. O espelho não me reconhecia e a recíproca era dolorida e verdadeira. Nada do que estava ali me representava. Na esperança de me encontrar nas recordações, abri a caixa de papel pra tentar me achar. Inútil esforço. Trazê-la pra realidade só fez aumentar o desconforto. Enquanto eu tentava encontrar alguma saída, o óbvio apareceu pra me visitar. Chegou com intimidade, como se me conhecesse desde sempre. E de fato conhecia, só faltava me fazer enxergá-lo.

Foi quando percebi que saber trocar de cenário é saber compensá-los. É uma constatação evidente  (dã),  mas exige boa dose de sabedoria prática. Eu, que me achava muito sabida por sair de casa aos 18, lavar minhas roupas e fazer arroz sem queimar, me vi desnorteada aos 24. Passado o meu estágio de larva aprendiz, o que se deu a seguir não foi um novo começo de era de gente fina, elegante e sincera. E é justamente aí que nasce a astúcia da compensação, pequena gafanhota.
Talvez eu não tenha mais tantos amigos por perto, mas posso ligar pra eles e enchê-los de bobagem no ouvido a qualquer hora. E ser xingada por isso quando for de madrugada. Posso não ter mais as tardes tranquilas, mas preencho-as fazendo algo útil e ganhando uns trocados que chamo carinhosamente de salário. Também não tenho as festas lendárias da universidade, mas ganhei um bocado de lugares novos pra conhecer. Nem vou ter os mesmos chamegos e atenção daquele que ficou no passado, mas posso encontrar outras características que até então eram ausentes. Minha família está espalhada aos quatro ventos e contraditoriamente nunca tão unida como agora. Enfim, se eu parar de tentar reproduzir as experiências já vividas, vou encontrar um mundo tão cheio de novas possibilidades quanto aquele lá do início.

E ainda assim tenho a chance de selecionar os momentos e as pessoas que mais gostei pra guardá-los naquela caixa, no seu devido lugar. Porque né... o tempo é que nem funil, deixa passar só o que presta.

Eu, que sempre quis mais do mesmo, já não me contento com o mesmo de sempre.

11 de março de 2011

O fruto permitido

yummy!

Mágica, né, essa tal de revolução tecnológica. Eu, que cresci e desenvolvi os ossos junto com a parafernália, fico abismada com tamanha criatividade. É gadget pra lá, gadget pra cá e quando vê, a coisa evoluiu num espaço de tempo tão curto, mas tão curto, que sequer paramos pra respirar e entender o que está acontecendo. Como um surto viral, uma certa maçã foi sendo mordida não só por Eva, mas multidões. O pecado da gula se ascendeu, Adão comemorou e tem gente sofrendo de indigestão sem saber o motivo. O fruto do paraíso nunca foi tão cobiçado. A diferença é que agora ele não dá só em árvore.

Cá pra nós, nunca comprei um produto da Apple. Não que me falte vontade, mas a minha árvore, antes de dar maçã, tem que dar dinheiro. E meu dinheiro, antes de virar uma maçã, precisa virar muitas outras coisas. Perrengue, a gente vê por aqui. Vou travando essa batalha com as minhas planilhas financeiras pra fazer caber todos os meus desejos nas linhas espremidas do excel (galerinha do mac é capaz de parir trigêmeos ao ouvir falar no office) quando percebo que não está faltando entretenimento para a minha sobrevivência.
Meu computador, querido, meu filho, tá vivo e passa bem. Aqui nozói do furacão tem biblioteca e sebo e livraria e revistaria e coisaria pra mais de metro.Se inventassem pontuação por tempo na Fnac, eu tava aí ganhando prêmio. Meu celular faz todas as ligações que preciso e envia todas as mensagens que quero, o que chega até a ser meio perigoso. Internet eu tenho em casa e no trabalho. Vejo todos os filmes que quero, ouço todas as músicas que gosto e meu coração nunca deu pirepaque enquanto eu estava correndo por falta de vigiar os batimentos cardíacos no medidor de pulso, amém. Do que mais eu preciso?

Ah sim, eu preciso ter um celular com internet acoplado no meu corpo pra poder checar a cada segundo as atualizações no twitter e o tanto de curtir que ganhei naquela última frase no facebook. Preciso postar foto do meu drink/cachorro/balada/namorado/pôr-do-sol/café/tatuagem no instagram com uma frequência razoável pra ninguém achar que eu morri. Afinal, se a minha vida na internet não tem repercussão, algo está errado. E pra angariar tanto ibope assim, só mesmo estando com todos os botões, tanto os seus quanto os do seu gadget, conectados vinteequatrohoras. Orra, ninguém mais vive offline? Ninguém mais vai pro bar com os amigos tomar cerveja e formular teorias ébrias? Ninguém mais passa um fim de semana épico sem ter que comunicar isso em todas as redes sociais?
É óbvio que a mudança de comportamento vincula-se às mudanças sociais. Não tenho a pretensão em contestar a utilidade dos aparatos tecnológicos mesmo porque isso seria cuspir pra cima e me banhar na hipocrisia. Os apetrechos estão aí é pra facilitar a nossa vida mesmo. Trazer quem tá longe pra mais perto, diminuir a saudade, otimizar nosso tempo, ampliar o acesso à informação, movimentar a economia e vários outros benefícios. Só que no meio de tanta invenção, esqueceram de reinventar o bom senso. Na boa, celular nenhum nesse mundo vai te dar chocolate num dia ruim ou te chamar pra fazer nada juntos.  Se você achar que sim, bom, aí você está com problemas e devia procurar um grupo de ajuda, fazer terapia, sei lá.

Em breve eu vou ter que comprar um celular menos bastardo que o meu porque tá ficando impraticável perder o tempo gasto em locomoção aqui nessa jeringonça de cidade grande enquanto eu poderia resolver aquelas pendências rotineiras (na verdade mesmo, tá foda viver sem o google maps pra me falar os trajetos quando eu fico perdida). E não será Iphone nem Ipod nem Itouch nem Ipad, eu já disse que a minha árvore ainda é um broto. O ponto nisso é que eu me forcei a esperar surgir uma necessidade pra fazer essa compra, assim como vou me forçar a continuar dando mais atenção a quem for de carne e osso. E quando eu digo que me forcei é porque, apesar de todo esse discurso born to be wild, eu não sou nenhum ser superior aos reles mortais escravos da tecnologia. Eu gosto da bagunça, só procuro dosar entre aquilo que, pra mim, tem mais valor.

Afinal, qual foi a última vez que você chegou em casa e ligou o chuveiro antes do computador? 

25 de fevereiro de 2011

Leve o dia leve

Antes de prosseguir a leitura, dê o play: Eliza Doolittle - Pack up

Se tem uma coisa gostosa de se admirar é aquele olhar evasivo do cotidiano cultivado por algumas pessoas. A capacidade de enxergar beleza na rotina e mudar o ângulo qual seja o lugar tornam os dias mais amáveis.

E vá lá, a rotina não é assim tão chata. O que manda é o jeito como escolhemos vivê-la. Muitas vezes eu me pego ranzinza no meio do dia por motivos bobos e quando vejo, eu poderia ter sido menos implicante com a temperatura bipolar, o tiozinho empacado na minha frente na escada rolante ou atraso no sistema do metrô. Isso se eu simplesmente entendesse que o segredo da caixa preta está na forma como a minha cabeça lida com o dia a dia. Sabe aquela de “pára o mundo que eu quero descer?” então...esqueça. Crie suas alternativas e reclame menos. Rotinices podem ter um sabor muito bom se soubermos prová-lo.

Ok, e daí então esse blábláblá todo?

Daí que dia desses achei um tumblr de uma fotógrafa, Bridget Fleming, que toca um projeto chamado Downtown from Behind. Ela tira foto por trás das pessoas andando de bicicleta pelas ruas do centro de Nova York e aproveita pra contar algo da vida dos seus personagens eleitos. Eu me apaixonei pelas fotos, pela ideia, pelo modo como ela consegue transparecer a simplicidade e criar um cenário novo naquele batido.

Um bom exemplo de como enxergar as situações com leveza.


  Bridget Fleming. Downtown from Behind.

Bridget Fleming. Downtown from Behind.

 Bridget Fleming. Downtown from Behind.

 Bridget Fleming. Downtown from Behind.

 Bridget Fleming. Downtown from Behind.

 Bridget Fleming. Downtown from Behind.


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