Sem amor, por favor
Não sabiam o que era, mas de
amor não se tratava. Tratavam mesmo de tudo aquilo que lhes interessava, da
conversa boa, demorada, deitada em copos de cerveja e fotografias das viagens nunca
feitas. Tratavam de um sexo ofegante, quimicamente destrutível, insaciável e
incurável, como se não houvesse amanhã. Tratavam do trabalho com o maior dos
caprichos, das oportunidades feitas a mão, de desvios e acertos, das dicas arriscadas
de quem prova a primeira colher do pote de doce, só pra preencher o portfólio
do ego. Tratavam das risadas soltas quando juntos, de procurar motivos
bobos, revelando-se em cada um deles aquele sorriso de lado, uma covinha e um
olhar sabido, de quem não precisa traduzir o que pensa. Tratavam de se dar bem,
enganavam os mais desavisados, burlavam todas as regras, inclusive as próprias.
Tratavam a sinceridade com a mais medíocre das verdades, emboladas num discurso
econômico, em palavras contidas e mensagens de celular ignoradas. Francamente, DR
não estava nos planos. Tratavam de se sobrepor a todo o momento, num xadrez imaginário
de jogatinas. Cheque-mate.
Não sabiam o que era, mas de
amor não se tratava. Ele, tratava de irritar. De fazer raiva, dar coceira com
as piadas idiotas dos mesmos motivos bobos, antes revelados naqueles sorrisos
de lado. Tratava de ser imbecil randomicamente, de encher a paciência com o gás
do seu ego, tão inflado a ponto de não sobrar qualquer espaço na cama. Ela, tratava
de confundir. De misturar as palavras, usando o não dito de camuflagem, com
toda a licença poética do drama feminino. Tratava de ser neurótica quando menos
poderia ou deveria. De inventar seu lugar no abraço dele, abraço esse que só
existia no descanso da cama depois de mais uma noite dividida. E não por acaso
desconfiavam tratar-se exatamente disso, de ter esgotado a reserva pra dois.
Vai, pode deixar sua credencial aí na mesa mesmo e sair. Apego também não
estava nos planos.
Não sabiam o que era, mas de
amor não se tratava. Trataram, de repente, de se esquecer, trocados, simples
como uma nota de 20 reais. Baratos como aquele humor oportuno dos sorrisos de
lado disfarçados. Tratou de ignorá-lo com a leveza do seu desapego, de quem
troca a cor do batom e engaveta aquele roxo gasto já sem graça. Nada com um
vermelho novo e vivo, ou até um rosinha claro mais aconchegante, não importa,
qualquer outro serviria para as noites de inverno. Tratou de conquistar quantas
mais fossem, reafirmando seu posto de suposto comando, levantando a guarda e o
que guardava por baixo da roupa. Aqui, meu bem, o que você perdeu, ó, tá vendo?
Sinceramente, não. E insistência nunca esteve nos planos. Trataram de sumir.
Não sabiam o que era, mas de
amor não se tratava. Trataram, um dia, de se reencontrar, jurando o menor dos
apegos. Uma cerveja, pra ficar pensando melhor. Trataram de todos os assuntos
corridos durante o vácuo da distância daqueles últimos meses. Ou foram anos?
Não importa, parece que ninguém havia mexido naquela mesa com a credencial, ou
mudado a posição dos pensamentos. Os mesmos motivos, os mesmos sorrisos de lado,
os mesmos olhares sabidos e as mesmas jogatinas. Estavam todos lá, cobertos por
um tempo empoeirado, mas ainda tão presentes. Trataram de pagar a conta e se
apressar enquanto a noite os desafiava a dividirem o tesão, uma vez mais. Pelo
bem de hoje. Vai meu bem, só por hoje, deixa a gente se tratar, eu quero te
sentir. Sabe, mesmo que o amor não esteja nos nossos planos, você, assim, de
corpo e alma leve, sempre esteve.
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touché! |
Nota: esta é uma crônica experimental, pra variar dos posts pessoais.